quarta-feira, agosto 17, 2016

Estudos sobre o património

22.

Quando era viva, a minha avó passava as tardes com mais sol ali sentada. Não propriamente ali, mas na casa dela, numa espécie de escano de madeira. A olhar ou a ler (especialmente qualquer coisa religiosa).

Já eu, quando era mais novo e era por ali que dormia a família ou parte dela, descia aquelas escadas de pedra e andava por ali, apesar do cheiro mais intenso. Ninguém queira imaginar aquele espaço antes de ser mexido.

Até que foi. Até que, religiosamente (no bom sentido de "religiosamente") todos uns anos existe um jantar (que será sempre em honra dela e da família). Este ano repetiu-se.

Eramos 22 à mesa. Entre os que estavam, não estavam e, essencialmente, os que podiam estar, quase me lembrei do Jorge Palma quando versava sobre os "serões habituais e as conversas sempre iguais".

Lembrei-me agora, mas então não.

Só senti que estávamos todos mais velhos. Tenho ideia que só a minha mãe não envelhece.

Não lamento o envelhecimento. Tenho pena que o veja. Que quase o apalpe. Louvo, porém, a renovação.

Mas pena tenho. Até porque há tanto para resolver. Tanta conversa que está em falta. Tanto, tanto.

quinta-feira, julho 14, 2016

Palavras homófonas

Anos.

Começo por uma repetição própria: não ligo à passagem de ano. Aquela história do 31 de dezembro para 1 de janeiro. Faço festa e costuma haver álcool? Claro, mas isso (felizmente) tenho todas as semanas, com bom vinho e excelente petisco. Festa é festa e o último dia do ano é uma boa desculpa como qualquer outra.

O meu tempo de reflexão começa a 16 de Julho, terminando em Setembro. Coincide, portanto, com o início e fim das férias judiciais.

No ano transacto, por esta altura e depois de 365 dias de esforço, parti rumo à República Dominicana com a sensação do dever cumprido. Na minha estadia, apenas a preocupação de chegar a tempo à praia e marcar os jantares temáticos. Resto? Rum e charutos.

Dois meses depois de ter chegado, resolvi tentar a minha sorte por conta própria, deixando para trás mais de 6 anos de colaboração com uma prestigiada sociedade de advogados de Almada (nota lateral: em entrevistas de emprego que tive, aqui e ali durante os ditos 6 anos, vários se riram com a designação. Aparentemente o engrandecimento que faço da sociedade é cómico).

 3 meses depois do início da aventura, surge outro desafio: serei pai.

Quer isto dizer somente uma coisa: se em Setembro de 2015 me tivessem dito que daí a 6 meses estaria com o meu negócio e à espera de rebento, provavelmente teria de pedir o internamento do informante.

No entanto, aqui estou.

Os receios são o que são. As certezas idem. Contudo, e porque tardo em pensar como um ser estruturado, tenho-me lembrado das palavras do Dr. Ian Malcom.

" I'm, I'm simply saying that life, uh... finds a way"






sexta-feira, julho 01, 2016

Numa tarde - Ou como quase nunca a morte de alguem é aquilo que poderiamos esperar se esperássemos efectivamente

Quando tinha cerca de seis anos, como tantas vezes ocorreu, fomos jantar a casa dos nossos tios Luís e Bela (a senhora, um doce de mulher, chama-se Isabel, mas pelo carinho que merece, assim a identifico). Por alguma razão que não me volta à memória, devo ter respondido de forma menos polida, mas de todo o modo respeitosa. Virou-se para o cão e chamou-o, usando o meu nome. Acto consumado, olhou para mim a rir-se, com alguma satisfação vingativa no olhar.

Numa outra ocasião, fui meter-me com ela. Perguntar por que razão havia Cristo morrido por nós. Só isto. Foram 6 horas de diálogo com ela, que até tinha sido freira. Não conseguiu explicar. Lembro-me de o meu antigo padrinho se rir a bandeiras despregadas. Do meu avô também.

Finalmente, num momento cronológico não alinhado com os anteriores, sentou-se na mesa de jogo que pontifica (sim, pontifica, adoro que uma mesa se destine ao jogo puro e duro) na casa dos meus pais e jogou um "pente" de sueca. Dizia: "filho, sempre tive que me virar e surpreender".

Hoje, envolvida em madeira fria, despedimo-nos dela.

Pessoas existem que não queremos que morram de forma alguma. Daí nunca imaginarmos a sua morte. Serão sempre imortais e, até certo ponto da nossa vida, são-no, porque não existe maneira que chegue o seu fim.

Este caso era diferente. Aqui, como que havia uma presunção de imortalidade. Foi um caso em que olhámos e dissemos: ela? Não cai. Não caiu.

Quando as despedidas foram proferidas, quase caiu aquela falácia que sustenta que "todos morremos sozinhos".

"Espera por mim lá em cima. Adeus, minha querida amiga".

E se eram amigas.

Se foram.

terça-feira, junho 21, 2016

Do Spoiler (ou tentativa de "homenagem")

Sou um ávido fã da série "Guerra dos Tronos".

Para quem a segue, hoje é um dia feliz.

Queria deixar aqui uma pequena "homenagem" ao melhor Vilão que aquela série conheceu: Ramsay Bolton/Snow.

Sem dúvida, a mais pérfida personagem jamais criada.

Foi magistral vê-la a agir em todo o seu esplendor. A maldade, tantas vezes aliada à genialidade, com um fim inglório, que mereceu.

Saibam e percebam: não havendo "Mindinho", o Snow tinha que recorrer aos serviços da mulher de vermelho uma vez mais.

O génio estava lá.


sexta-feira, junho 17, 2016

Silva

Um dos meus filmes preferidos chama-se "Alta Fidelidade", ver aqui.

Numa das suas muitas cenas, quase de antologia, os empregados da Champioship Vinyl lançam uma discussão: de que temas seria composto o top 5 de músicas sobre a morte, idealmente a passar no próprio funeral?

Não é que pense nisso. Nem me faz muito sentido. Não me interessa o efeito que a música tem noutros, mas sim em mim. Estando morto, não oiço. Abro excepção para quem entende que quem presta a última homenagem deve estar rodeado de algo sonoro para além das vozes dos demais.

Ao recordar a cena, nem sei bem porquê, fui levado a pensar noutro aspecto que mistura a música com a mortalidade. Que música passava quando soube que algum ente querido tinha "partido"?

Lamentavelmente, só me lembro de uma. Ouvia-a quando soube que o meu avô não tinha resistido. Paradoxo de merda: é uma bela música. Tem um verso filho de puta: "Pode ser belo o feio visto de perto". Ainda diz: "O avesso às vezes pode dar certo".

Já tive a minha quota parte de perdas. E num período muito curto.

O pior é não me lembrar. Sinto que mandei qualquer coisa para o subconsciente só com bilhete de ida.

Assustam-me os traumas.


Pensar

É estar doente dos olhos. O que é ver como um danado?

Vamos ao mundano.

Quando era mais jovem, tinha uma tese imberbe: as raparigas (no usar luso da palavra) mais engraçadas e dotadas andavam juntas. Quase como se de um cartel se tratasse.

A tese, por força da vida, não veio a ter sucesso. Só se verificariam episódios esporádicos que serviam, não para provar, mas demonstrar que são excepção.

Isto serviu de base para ter noção de algo, mas para o futuro: o que é de bom, como o que é de mau, vem aos grupos. No plural. Confirmei, ao fim e ao cabo, que uma desgraça nunca vem só, citando o mítico povão.

Estou mal de vida? Não estou não senhor. Poderei estar? Queira deus que não, nossa senhora de Fátima.

Sucede que isto tem corrido bem. E a vida nunca corre bem para sempre.

quinta-feira, junho 09, 2016

Lâncome

Anúncios de perfume. Um pouco, tudo-nada, como os anúncios dos pensos higiénicos. Posso conceder que, quanto a estes últimos, existe uma perigosa apologia da mulher com o período que passa bem por Super-Homem.

Percebo pouco de publicidade, diria mesmo, que percebo pouco de muito em geral. Neste ramo do "saber", e também da acção, creio que a psicologia joga uma carta essencial. Daí partir para uma conclusão que tirei há muito: a raça humana pensa toda de forma parecida. A economia dirá o mesmo.

Pois bem, ontem, enquanto saboreava um sofrível choco frito à moda de Setúbal, mas somente a fazer lembrar o Sado, em conversa falou-se de aspectos específicos do nojo. Também aqui creio que a Humanidade está unida, salvo raras excepções.

Para mim, algo fez sentido há pouco, quando achei que o nojo e um seu combatente (o perfume) se podiam unir e passar uma mensagem eficaz.

Cheguei ao anúncio que me faria comprar um perfume, de caras.

Num cenário de piquenique, um fulano com os seus 150 kilinhos bem pesados está sentado numa cadeira de praia, somente de calções. À sua volta, amigos, homens, mulheres.

Está calor. O fulano sua em bica. Todo ele é água. Debaixo das suas mamas, um oceano de suor. Na barriga, pêlos pretos, grossos, de uma vida de trabalho. O homem, acto contínuo, pega num pedaço gigante de pão, encosta-o ao peito e corta-o, com uma faca sobre-dimensionada. Enquanto a faca corta, o pão vai sendo empurrado pela lâmina contra o peito do bicho. Feito o serviço, corta uma fatia de queijo Castelões da mesma forma. Junta e come.

Aparece a Cristina Ferreira em vestido azul (estou muito longe de ser fã da senhora, pelo contrário) e borrifa-se no "Comenda #7".

Para homem e mulher.


terça-feira, maio 31, 2016

Para ajudar a perceber o infra exposto

A composição

Um casal que solicita os meus serviços profissionais ofereceu-me uma pequena banheira.

Uma banheira onde poderei lavar a criança que ai vem.

De onde veio, ou como veio, não sei. O casal é de confiança e ofereceu, de forma efusiva, aquela composição de plástico. Aceitei-a e, para quebrar protocolos, dei dois beijinhos na cara à senhora.

Entretanto, ouvi Lou Reed e, por alguma razão, fui projectado para uma visão de pobreza, miséria e dificuldades financeiras no geral.

A música era o "Perfect Day".

A visão era qualquer coisa como uma foto dos anos 80, em que estava vestido de ganga e tinha um infante ranhoso ao colo. Devia estar a regressar de uma feira.

A questão é que sempre associei as crianças a miséria financeira. Há algo de pobre nos casais que vejo com crianças pequenas.

Até quem eu sei que é abonado me parece um mendigo quando segura um pequeno ao colo.

(Nota pessoal: para não variar, o texto está escrito com a mestria de um repetente do quarto ano. É tentar dar um ar alucinado e parecer só estúpido.)