sexta-feira, maio 26, 2017

O "quando"

Jigoro Kano foi o fundador do Judo. Pequeno, de constituição débil, conseguiu trazer ao mundo um desporto em que só interessa não se derrubado.

Com o advento do Judo não faltaram analogias e princípios de vida associados. Aquele que retive poderia chamar de "parábola do salgueiro". O salgueiro, árvore conhecida, torcia, mas nunca quebrava. O vento passava e ele vergava, só para logo depois voltar ao sítio. Alguém trepava por ele acima, ele vergava, só para logo depois voltar ao sitio.

Já Nuno Markl, numa rubrica que tem na Rádio Comercial chamada "Baladas do Dr. Paixão", poderia dizer que isto mais não é que uma frase inspiradora de facebook com pôr-do-sol atrás. Gente mais mal intencionada poderia atribuir isto ao Gustavo Santos ou, no limite, ao Nuno Espírito Santo.

Pela minha parte, nem sei bem a razão de ter sacado destas "lembraduras"  a propósito do que vou escrever. Talvez lá para o fim aconteça a luz.

A 25 de Maio de 2007 tinha medo. Estava aterrorizado com a hipótese de falhar. Esta sensação ocorre quando tenho a absoluta certeza que me lancei para fora de pé. Tinha lançado. Ainda hoje o acho. Há expressões equivalentes: areia a mais para o meu camião; ela é de outro campeonato; nas palavras de Gabriel, O pensador: muita ração para minha tigela.

Ainda acho que não saí da Faculdade. Ainda estou naquela noite. Lembro-me perfeitamente quando me fui embora, não obstante. Incrível, mas foi: pensava que estava a deixar a minha vida toda para trás. Não partia como um todo. 

E dos palhaços que disto falavam e isto diziam só me podia rir.

Tocou-me. Chegou a vez de perceber o que era a poesia e algum fado. Chegou o momento em que deixei de ser um ser inteiro. 

Hoje aqui escrevo. Dez anos depois. Pouco menos de 4000 dias.

Sendo o mesmo, não sou. Sonhando, estou acordado. Outrora sozinho, agora com ela.

Juntos. 

Ao sabor do vento, vivendo a vida. Torcendo, nunca quebrando, para logo depois voltar ao sítio.

A nós.

sexta-feira, maio 19, 2017

O meu caro amigo Eduardo

O estimado cavalheiro que menciono no título remeteu-me uma missiva electrónica referindo que, graças a este estaleiro, se tinha lembrado de que hoje era dia do Advogado.
Depois de mais umas missivas trocadas, lá se estabeleceu que ele tinha lido qualquer coisa no blogue daquele ser "todobom" que é a minha esposa.

Adiante.

O meu caro amigo Eduardo teve sempre o especial talento de me fazer escrever. Lembro-me, inclusivamente, numa sala obscura de uma qualquer aula prática, tida na faculdade, de me ter dito: "olha, cá está uma coisa para meteres no blogue".

Dito isto, cá vai "qualquer coisa".

Hoje é dia de São Ivo, padroeiro, entre outras coisas, dos Advogados, ofício que exerço, ainda que vagamente contrariado.

A Advocacia moderna, não obstante do que vem sendo dito, tem práticas milenares. Por outro lado, o mercado e forças deles constantes trataram de diferenciar negativamente os elementos da classe.

Sendo mais especifico, o glamour da tv e cinema fizeram da advocacia algo que ela não é. Mas com isto vivemos bem. A mentira faz parte da vida e sem ela não existe a verdade. O que me choca é o poder dos media. Para além dos espaços televisivos onde se sentam Advogados que, tendo notoriedade, não são necessariamente mais competentes, temos algo mais recente: as revistas. Com efeito, há revistas próprias e criadas para promover advogados e seus escritórios, revistas que se subsidiam com o dinheiro que os advogados pagam para lá aparecer.

Neste dia, quero propor algo diferente: uma revista que só fale de pequenas sociedades e advogados em prática individual que ainda respiram graças à máquina.

O nome: Zés das Couves

Periodicidade: Diária (Claro)

Tamanho: A4, 35 páginas

O m.o seria o seguinte: Começavam a cobrir o Algarve e iam subindo até chegar a Monção do Minho.

Na capa, o advogado mais "porta de cadeia" da zona.

"Ildeberto Costa é advogado na Comarca de Odeceixe  há 10 anos. No seu CV conta já com a defesa do gang do Medronho, o cartel das Laranjas e a absolvição de Joaquim "Marreco", conhecido por alterar marcos dos terrenos a pedido. Ildeberto tem este nome em homenagem a S. Ildeberto, padroeiro das virgens ofendidas, devidamente compensadas em pedido cível 100% procedente. Hoje, Ildeberto abre as portas do seu escritório, sito no Centro Comercial "SolMar". Lá dentro, serve-nos um Nescafé com cheirinho".

Feliz dia do Advogado.




sexta-feira, maio 12, 2017

Supondo

Que o Vitória ganha na Luz;
Que o Salvador se engasga;
Que o Papa refere gostar muito de Lourdes.

Que fim-de-semana temos?

Reflexo

Hoje, sonhei que rapava o cabelo.

Nada de chocante, como em tempos fiz. Máquina 4.

No sonho, dava indicações erradas e adormecia. Ao acordar, aquilo. Não era um "corte" qualquer. Era semelhante ao de um conhecido Chef Jugo-Luso.





O meu subconsciente anda viciado.

terça-feira, maio 02, 2017

Memória

Pensar na Streisand. Gatos?

Ainda que em código, há que registar. Há que manter ao alcance.

A propósito do tema abaixo, e remetendo (como fiz numa conversa tida com a esposa) para o High Fidelity, na cena específica onde se fala num determinado conjunto de canções para determinado momento da "vida" (cá está, codificação, ainda que da pobre), esta é uma delas.

Podia ser "a do momento". Por tudo. Sobretudo, pela ironia.



quinta-feira, abril 06, 2017

A poluição da blogoesfera

Fitter, happier, more productive
Comfortable
Not drinking too much
Regular exercise at the gym
Three days a week


Um problema clássico é aquele que medita sobre o nosso lugar no mundo. Podemos ver isto de uma perspectiva mais ampla ou, então, centrar a discussão em nós próprios.

Francamente, marimbo-me para a perspectiva ampla. A humanidade que trate dela, enquanto todo. Tem a eternidade para isso.

Contudo, se penso neste corpo claramente fora de prazo e na eventualidade de alma que o habita, fico indisposto.

O meu lugar no mundo está errado. Deduzo isto através de um princípio de inversão e observação com pena. Penso em bêbedos. Penso em drogados. Penso em que gente que fez outras escolhas. Depois, penso em mim.

Há, essencialmente, três atitudes que todos temos perante um bêbedo. Falo de bêbedos crónicos, alcoólicos, não é de verdinhos em Calpe.

a) Nojo. Queremos que ele vá à vida dele.
b) Gozo. Se o bêbedo arrastar a voz e disser que "O Salazar é que foi um grande home" o dia está ganho.
c) Pena.

A pena é o ponto. Pena. Porquê? Porque "está a estragar a vida", porque "havia potencial", porque "a idade devia dar outro discernimento", enfim, penas para todos os gostos e situações.

A pena deriva de uma comparação. Que a tem, para com outrem, tem-na porque conhece gente feliz sem lágrimas e com modesto ou abundante sucesso. Gente que, não como o bêbedo que vislumbram, pôs ao seu serviço o potencial que detinha.

O bêbedo representa a antítese daquilo que poderia ser a vida. É a negação da concretização. É a confirmação da desgraça.

Posto isto, eu.

Passada a barreira psicológica dos 30, voltei a pensar nos feitos. O número é redondo. Tão redondo quanto um zero pode ser.

Há realizações pessoais, claro. Há motivos pelos quais lutar. Felizmente, todos eles externos. Só podia.

Dei por mim a liquidar (no sentido fiscal) os talentos e capacidades. O número é bonito. Tão bonito quanto um zero pode ser.

Dei por mim a pensar que, se fosse eu o bêbedo, ninguém sentiria pena. Corresponderia ao meu lugar no mundo. Ao olhar para mim, quando noutro caso haveria pena, no meu caso haveria um aceno de cabeça, confiante, como se dissessem: "Cada um é mesmo para o que nasce".

Devia ter-me desviado de um hipotético caminho do natural há anos. Teria poupado os que me estão próximos à minha natural "chatice".

Já sendo, deveria ser, ainda mais, um farrapo humano. Com um prazo muito curto de vida.

Não digo drogas. Digo álcool.

O meu lugar no mundo é o de farrapo. 




Em diante. Dizer em diante. Ser dito em diante. Dalgum modo em diante. Até de modo nenhum em diante. Dito de modo nenhum em diante.

Dizer por ser dito. Desdito. De ora em diante dizer por ser desdito.

Dizer um corpo. Onde nenhum. Mente nenhuma. Onde nenhuma. Ao menos isso. Um lugar. Onde nenhum. Para o corpo. Estar lá dentro. Morrer-se lá dentro. E sair. E voltar lá para dentro. Não. Sair nenhum. Voltar nenhum. Só entrar. Ficar lá dentro. Em diante lá dentro. Parado.

Tudo desde sempre. Nunca outra coisa. Nunca ter tentado. Nunca ter falhado. Não importa. Tentar outra vez. Falhar outra vez. Falhar melhor.




samuel beckett
últimos trabalhos de samuel beckett
tradução de miguel esteves cardoso
o independente / assírio & alvim
1996

quinta-feira, março 30, 2017

Erros de percepção, sejam mútuos ou não

"Centeno rejeitou ter mentido na polémica sobre as declarações de rendimento e património da equipa de administradores da CGD liderada por António Domingues. Admitiu, contudo, um "erro de percepção mútuo", que levou Domingues a acreditar que a sua equipa estaria isenta de entregar aquelas declarações ao abrigo das alterações ao Estatuto do Gestor Público."

in: aqui 

Depois desta célebre expressão, que supra transcrevo, vieram a terreiro centenas (para ser conservador) de "tudólogos" explicar que isto não existia. Que um erro de percepção nunca pode ser mútuo", uma vez que a percepção é feita por uma pessoa, ou até mais, não pode é ser mútuo, porque, se uma pessoa explica, a outra percebe ou não, mas não podem as duas "não perceber".

Mantive-me céptico.  As possibilidades são infinitas e, como dizia o Dr. Malcom, "life finds a way".

Na passada terça-feira, life found a way.

O Samsung que me acompanha há três anos tocou. Do outro lado, uma voz. Dizia a mesma que trazia feedback positivo e que, qual encontro à americana que correu bem, queriam voltar a falar comigo.

O que sucedeu? Um erro de percepção mútuo. Na conversa que tive, uma conversa a três, para ser rigoroso, comprova-se que ninguém percebeu "ponta de corno". 

Pela minha parte, claro que não percebi o iter da converseta. Pela parte deles, não perceberam a verdade dos factos.

(E sim, estou a ser propositadamente vago).

Ergo, 

Erro de percepção mútuo.

O me quererem ver novamente, erro de percepção. Violadíssimo o princípio da causalidade. É como accionar o seguro sem sinistro.

O ser chamado, erro de percepção. Violadíssimo o princípio da culpa. É preciso ter consciência. Deixei-a em casa.

De parte a parte.

É mútuo.

Enfim, foi giro.

Uma esboço de reacção

De acordo com a Wikipedia, "Manuel João Gonçalves Rodrigues Vieira (Lisboa, 17 de outubro de 1962) é um músico e pintor português.

Filho mais velho do pintor português João Rodrigues Vieira, estudou na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa e foi membro do movimento homeostético, em conjunto com Pedro Proença, Pedro Portugal, Ivo Silva, Xana, e Fernando Brito. É professor na Escola Superior de Artes e Design de Caldas da Rainha.

Fundador e vocalista das bandas Ena Pá 2000, Irmãos Catita e Corações de Atum, criou e encarnou diversas personagens em palco, como Lello Universal, Lello Minsk, Lello Marmelo, Orgasmo Carlos, Catita, entre outros. Recentemente uma sua biografia fictícia foi alvo de uma série de seis episódios intitulada Mundo Catita, transmitida em exclusivo na RTP2, em 2008, editado em DVD, em 2009 e, exibida na SIC Radical em Dezembro de 2010.

Foi um dos proprietários do Cabaret Maxime, junto à Avenida da Liberdade, em Lisboa.

Anunciou a sua candidatura a Presidente da República Portuguesa, em 2011 e em 2016."

Isto é dizer pouco. A biografia de alguém é, como terá sempre de ser, constituída por factos, de preferência o mais concreto possível. Mas é mais. Há sempre a marca que o biografado deixa na vida daqueles que, de forma mais ou menos directa, o seguem.

Manuel João Vieira deixa-me risos. Às vezes, risos imparáveis, daqueles que fazem chorar. Gargalhadas.

Por exemplo, o "És cruel". Não me consegui parar de rir quando o ouvi pela primeira vez. Depois seguiu-se a necessidade de ouvir tudo quanto me estava disponível de Ena Pá 2000, Irmãos Catita, Corações de Atum, por aí fora.

Ontem voltei a ouvir o tema que referi. A seguir a esse, apareceu o "Marilú". Não me lembrava dele.

Quando acaba o "Marilú" (n.d.r: digo "o" porque me refiro a ele como tema. Tema é masculino) surge o trabalho bem conseguido abaixo postado.

Como há algo em mim que aprecia a divulgação de tragédias cómicas, aqui fica.